A pregação expositiva
autêntica é marcada por três características distintas: autoridade, reverência
e centralidade. A pregação expositiva é autoritativa porque se firma sobre a
própria autoridade da Bíblia como a palavra de Deus. Tal pregação requer e
reforça um senso de expectativa reverente por parte do povo de Deus. Por fim, a
pregação expositiva demanda uma posição central na adoração cristã e é respeitada
como o evento pelo qual a palavra viva de Deus fala com Seu povo.
Uma análise cuidadosa de nossa
era contemporânea foi feita pelo sociólogo Richard Sennet, da Universidade de
New York. Sennet nota que, em tempos passados, uma grande ansiedade da maioria
das pessoas era a perda da autoridade governamental. Hoje a mesa virou, e as
pessoas modernas ficam ansiosas por conta de qualquer autoridade sobre elas:
“Agora tememos a influência da autoridade como uma ameaça a nossas liberdades,
na família e na sociedade em geral”. Se as gerações anteriores temiam a
ausência de autoridade, hoje vemos “um medo da autoridade, quando ela existe”.
Alguns especialistas em
homilética sugerem que os pregadores deveriam simplesmente abraçar essa nova
cosmovisão e desistir de afirmar terem uma mensagem autoritativa. Aqueles que
perderam a confiança na autoridade da Bíblia como a palavra de Deus tem pouco a
dizer e nenhuma autoridade em sua mensagem. Fred Craddock, uma das figuras mais
influentes no pensamento homilético recente, descreve de forma pontual o
pregador atual como “alguém sem autoridade”. O retrato que ele pinta dos
predicados do pregador é assustador: “O velhos pregos e parafusos enferrujam no
casco enquanto o ministro tenta guiar seu povo pelas águas pantanosas das
relatividades e possibilidades”. “Não é mais possível ao pregador pressupor o
reconhecimento geral de sua autoridade como clérigo, ou a autoridade de sua
instituição, ou a autoridade da Escritura”, Craddock argumenta. Resumindo a
situação do pregador pós-moderno, ele relata que o pregador “se questiona
seriamente se deveria continuar provendo monólogos em um mundo dialógico”.
A questão óbvia a se fazer à
análise de Craddock é essa: se não temos qualquer mensagem autoritativa, por
que pregar? Sem autoridade, o pregador e a congregação estão envolvidos em uma
perda de tempo massiva. A própria ideia de que a pregação pode ser transformada
em um diálogo entre o púlpito e os bancos indica a confusão de nossa era.
Em contraste com isso está o
tom de autoridade encontrado em qualquer pregação expositiva. Como Martyn
Lloyd-Jones nota:
Qualquer estudo da história da
igreja, e particularmente qualquer estudo dos grandes períodos de reavivamento,
demonstra acima de tudo esse único fato: que a igreja cristã durante todos
esses períodos falou com autoridade. A grande característica de todos os
reavivamentos tem sido a autoridade do pregador. Parecia haver algo novo, extra
e irresistível naquilo que ele declarava em nome de Deus.
O pregador se atreve a falar
em nome de Deus. Ele sobe ao púlpito como um mordomo “dos mistérios de Deus” (1
Coríntios 4:1) e declara a verdade da palavra de Deus, proclama o poder dessa
palavra, e aplica a palavra à vida. Esse é certamente um ato audacioso. Ninguém
deveria sequer contemplar tal empreitada sem ter confiança absoluta em um
chamado divino para pregar e na autoridade imaculada das Escrituras.
Em última análise, a
autoridade suprema da pregação é a autoridade da Bíblia como palavra de Deus.
Sem essa autoridade, o pregador está nu e calado perante a congregação e o
mundo que o assiste. Se a Bíblia não é a palavra de Deus, o pregador está
envolto em um ato de auto-ilusão ou pretensão profissional.
Permanecendo na autoridade da
Escritura, o pregador declara uma verdade recebida, não uma mensagem inventada.
O ofício do ensino não é um papel de aconselhamento baseado em experiência
religiosa, mas uma função profética na qual Deus fala com seu povo.
A pregação expositiva também é
marcada pela reverência. A congregação reunida perante Esdras e os outros
pregadores demonstravam amor e reverência pela palavra de Deus (Neemias 8).
Quando o livro era lido, o povo se levantava. Esse ato de se levantar revela o
coração do povo e seu senso de expectativa conforme a palavra era lida e
pregada.
A pregação expositiva requer
uma atitude de reverência por parte da congregação. Pregação não é um diálogo,
mas envolve pelo menos duas partes – o pregador e a congregação. O papel da
congregação na pregação é de ouvir, receber e obedecer a palavra de Deus. Ao fazê-lo,
a igreja demonstra reverência pela pregação e ensino da Bíblia e entende que o
sermão traz a palavra de Cristo para perto da congregação. Isso é verdadeira
adoração.
Por falta de reverência pela
palavra de Deus, muitas congregações se veem em uma busca frenética por
significado em sua adoração. Cristãos saem do culto perguntando uns aos outros:
“você entendeu alguma coisa daquilo?”. Igrejas realizam pesquisas para medir as
expectativas: vocês gostariam de mais música? De que tipo? E teatro? Nosso pregador
é criativo o suficiente?
A pregação expositiva requer
um conjunto de questões bem diferente. Eu vou obedecer a palavra de Deus? Como
eu preciso moldar meu pensamento à Escritura? Como eu devo mudar meu
comportamento para ser plenamente obediente à palavra? Essas questões revelam
submissão à autoridade de Deus e reverência pela Bíblia como sua palavra.
De forma semelhante, o
pregador deve demonstrar sua própria reverência pela palavra de Deus ao lidar
de forma fiel e responsável com o texto. Ele não deve ser irreverente ou
casual, muito menos desrespeitoso ou arrogante. Disso estamos certos, nenhuma
congregação reverencia mais a Bíblia do que seu pregador.
Se a pregação expositiva é
autoritativa, e se demanda reverência, ela também deve estar no centro da
adoração cristã. Um culto propriamente direcionado para a honra e glória de
Deus encontrará seu centro na leitura e pregação da palavra de Deus. A pregação
expositiva não pode receber um papel secundário no ato da adoração – ela deve
ser central.
Durante a Reforma, o propósito
que movia Lutero era o de restaurar a pregação ao lugar apropriado na adoração
cristã. Se referindo ao incidente entre Maria e Marta em Lucas 10, Lutero
lembrou sua congregação e os estudantes sob ele que Jesus Cristo declarou que “uma
só coisa” é necessária, a pregação da palavra (Lucas 10:42). Assim, a
preocupação central de Lutero era de reformar a adoração nas igrejas ao
reestabelecer nelas a centralidade da leitura e pregação da palavra.
A mesma reforma é necessária
no evangelicalismo atual. A pregação expositiva deve mais uma vez ser central
na vida da igreja e central na adoração cristã. No fim, a igreja não será
julgada pelo Senhor pela qualidade de sua música, mas pela fidelidade de sua
pregação.
Quando os evangélicos de hoje
falam casualmente da distinção entre adoração e pregação (dizendo que a igreja
vai desfrutar de uma oferta de música antes de acrescentar um pouquinho de
pregação), estão acusando o golpe de sua falta de entendimento tanto de
adoração quanto do ato da pregação. Adoração não é algo que fazemos antes de
nos sentarmos para ouvir a palavra de Deus; é o ato pelo qual o povo de Deus
dirige toda sua atenção para o único vivo e verdadeiro Deus que fala com eles e
recebe seu louvor. Deus é louvado da forma mais bela quando seu povo ouve sua
palavra, ama sua palavra e obedece sua palavra.
Assim como na Reforma, o
corretivo mais importante para nossa deturpação da adoração (e defesa contra as
demandas consumistas correntes) é o retorno correto da pregação expositiva e da
leitura pública da palavra de Deus à primazia e centralidade na adoração.
Apenas assim a “joia perdida” será verdadeiramente redescoberta.
Por: Albert Mohler Jr.
Fonte: Reforma 21
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